Uma equipa de cirurgiões em Taiwan alcançou um marco significativo na medicina cardiovascular. Realizaram com sucesso um transplante de coração inovador, no qual o órgão doado permaneceu a bater continuamente durante todo o processo entre o dador e o recetor.
O desafio do tempo de isquemia nos transplantes cardíacos
A cirurgia pioneira foi conduzida por uma equipa do Hospital Universitário Nacional de Taiwan (NTUH), em Taipé. Numa abordagem tradicional de transplante cardíaco, o coração do dador é parado, removido e preservado numa solução fria para reduzir as suas necessidades metabólicas durante o transporte e implantação.
Este período, conhecido como “tempo de isquemia“, representa o intervalo em que o órgão está privado de fluxo sanguíneo e oxigénio. Embora crucial para a preservação, este tempo acarreta riscos inerentes.
A falta de oxigénio (isquemia) pode causar danos ao miocárdio, tecido muscular do coração, comprometendo a sua função e viabilidade após o transplante, além de aumentar o risco de rejeição. Mesmo que este período raramente exceda algumas horas, qualquer tempo de isquemia pode levar a lesões miocárdicas.
A solução do NTUH: transplante com zero tempo de isquemia
A equipa do NTUH procurou eliminar completamente esta fase crítica. Implementaram um transplante com zero tempo de isquemia, garantindo que o coração continuasse a bater enquanto era transferido entre os corpos.
Pretendíamos realizar um transplante cardíaco sem qualquer tempo de isquemia para que o coração não tivesse de parar, evitando assim as lesões que tipicamente ocorrem após a reperfusão [restabelecimento do fluxo sanguíneo].
Explicou Chi Nai-hsin, médico assistente do Centro Cardiovascular do NTUH, numa conferência de imprensa realizada a 16 de abril. Este feito foi possível graças a um sistema de manutenção de órgãos especialmente desenvolvido, designado Organ Care System (OCS).
O OCS do NTUH manteve o coração do dador perfundido com sangue oxigenado e a bater ritmicamente durante todo o transporte entre blocos operatórios.
Resultados promissores
A primeira paciente a beneficiar desta técnica revolucionária foi uma mulher de 49 anos com cardiomiopatia dilatada, operada em agosto do ano passado. A paciente teve alta hospitalar pouco tempo após a cirurgia e encontra-se bem.
As consultas de seguimento pós-operatórias demonstraram níveis consistentemente baixos de enzimas cardíacas – marcadores que geralmente aumentam em transplantes convencionais, indicando lesão no músculo cardíaco.
Demonstrámos a segurança e a viabilidade da cirurgia.
Afirmou o Dr. Chi, acrescentando que um segundo transplante utilizando a mesma técnica foi realizado com sucesso no início deste ano.
É interessante notar que, embora a Universidade de Stanford também tenha publicado artigos em 2023 e 2024 sobre os seus próprios transplantes com coração a bater, esses procedimentos envolveram breves períodos de isquemia (entre 10 a 30 minutos) durante a transição do órgão para o sistema de suporte.
Em contraste, nas duas operações realizadas pelo NTUH:
Os corações ainda batiam antes da recolha, continuaram a bater após a recolha e nunca pararam – alcançando zero tempo de isquemia.
Sublinhou Chen Yih-shurng, chefe da Equipa de Transplante de Órgãos do hospital.
O estudo de caso que detalha esta inovação foi aceite para publicação na revista científica Journal of Thoracic and Cardiovascular Surgery Techniques, e já está disponível uma versão pré-publicada.
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